Segunda-Feira, 16 de Janeiro de 2023

Do Sonho como Princípio de Realidade

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Salão nobre da Casa da Cidadania 

Nas traseiras da Junta de Freguesia do Lumiar  - Largo das Conchas

Alameda das Linhas de Torres 156

DO SONHO COMO PRINCÍPIO DE REALIDADE

Numa passagem fulcral de um escrito de 1981, "La création dans le domaine social-historique", Castoriadis escrevia: "… quase sempre, os filósofos começam por dizer: “Quero ver o que é o Ser, o que é a realidade. Ora, aqui está uma mesa: o que é que esta mesa me mostra como traços característicos de um ser real? “Nenhum filósofo alguma vez começou por dizer: “Quero ver o que é o Ser, o que é a realidade. Ora, aqui está o meu sonho da noite passada: o que é isso me mostra como traços característicos de um ser real? “(cf. Les carrefours du labyrinthe II, Le Seuil, 1986)

A partir desta afirmação da realidade do sonho, convirá para começar interrogarmo-nos, tendo em vista o tema deste novo encontro da SPPS, sobre o que é que o facto do sonho nos diz sobre a natureza daquilo a que Merleau-Ponty chamava a "carne do mundo", da qual, de parte inteira, a nossa carne cujo pulsar cria a realidade do sonho faz parte.

Num segundo momento, será uma exigência incontornável do princípio de realidade reflectirmos sobre esse momento privilegiado de A Interpretação dos Sonhos, que de resto atravessa toda a obra de Freud, em que este, visando esclarecer e dar conta e razão da realidade do sonho, acaba por descobrir, sem por isso renunciar ao exercício da razão, que esta, do mesmo modo que todo o pensamento, é uma metamorfose social-histórica desse processo primário, que, diria de novo Castoriadis, como incessante fluxo de imagens que são ao mesmo tempo representação, investimento e afecto, aflora no sonho e o torna estrada real para o conhecimento do inconsciente, cuja natureza pulsional, irredutível tanto à realidade psíquica que cria como ao corpo enquanto realidade  somática do organismo propriamente dito, nos faz reencontrar a "carne do mundo" ao levar-nos a conceber a da nossa realidade humana como uma espécie de "tecido conjuntivo" (Merleau-Ponty) do qual emergem como polos tanto aquilo a que chamamos sujeito e objecto como aquilo a que chamamos psique e soma.

Assim, se tivéssemos de resumir o propósito do encontro sobre o sonho que a SPPS vos propõe, diríamos que é o de um reconhecimento da realidade do sonho que alargue o princípio de realidade: um princípio de realidade que nos torna mais capazes de reconhecer a carne que somos como carne do mundo e a carne do mundo como carne da sua carne. 

Texto de Miguel Serras Pereira